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Primeiro-ministro da Etiópia ganha o Nobel da Paz após firmar acordo que pôs fim a 20 anos de conflito

Nuevos Vecinos, Madrid, España
Primeiro-ministro da Etiópia ganha o Nobel da Paz após firmar acordo que pôs fim a 20 anos de conflito

RIO — O Comitê Norueguês do Nobel, responsável pelo  Nobel da Paz , anunciou na manhã desta sexta-feira que o prêmio deste ano vai para o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, por seus esforços em acabar com o conflito com a vizinha Eritreia e pela cooperação internacional. O anúncio foi feito em Estocolmo, na Suécia, e representa a 100 o premiação da categoria.

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Em julho do ano passado, Abiy firmou um acordo de paz com a vizinha Eritreia, que acabou com um conflito militar de 20 anos, iniciado após a guerra Guerra Eritreia-Etiópia, entre 1998 e 2000. Segundo as apostas, seu nome era um dos favoritos para ganhar o prêmio.

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Leia mais : Conheça mais sobre a Eritreia e a Etiópia, que anunciaram paz após 20 anos

Abiy é o segundo africano consecutivo a ganhar o Nobel da Paz, seguindo o congolês  Denis Mukwege, premiado por seus esforços no combate ao estupro e a violência contra as mulheres. O premier etíope é o 24 o africano a ser premiado.

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Primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, venceu o Nobel da Paz de 2019 pelos seus esforços pela paz e cooperação internacional Foto: Comitê Norueguês Nobel “O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, foi agraciado com o prêmio Nobel da Paz deste ano por seus esforços em atingir a paz e a cooperação internacional e, em particular, por sua iniciativa decisiva de resolver o conflito com a vizinha Eritreia“, disse a presidente do Comitê Norueguês do Nobel, Berit Reiss-Andersen.

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Em uma comunicado divulgado para a imprensa, o governo etíope comemorou o prêmio e disse que a premiação e o reconhecimento do Nobel são “uma vitória coletiva para os etíopes e um chamado para fortalecermos nossos esforços para transformar a Etiópia em uma nação próspera para todos”.

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PUBLICIDADE Décadas de conflito Durante a Segunda Guerra Mundial, a atual Eritreia e Etiópia se transformaram em campos de batalha na luta contra o imperialismo italiano. Após o conflito, uma resolução aprovada pela ONU estabeleceu que Eritreia e Etiópia formariam confederações. Em 1962, no entanto, a Etiópia anexou a Eritreia, impondo seu idioma, sua cultura e seu governo. Pelas três décadas seguintes, a Eritreia lutou por sua independência contra a Etiópia, conflito que deixou cerca de 200 mil mortos em ambos os lados.

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Em 1991, a junta militar Deng que havia chegado ao poder na década de 1970 em Adis Ababa, foi derrubada por uma coalizão de grupos rebeldes que haviam se aliado com a Frente Popular pela Liberação da Eritreia, grupo separatista do país vizinho, contra o inimigo comum

Como parte da transição de poder, ficou concordado que a Frente Popular deveria liderar um governo autônomo de transição na Eritreia e um referendo para que o povo do país pudesse escolher sobre seu futuro. Em abril de 1993, a Eritreia se tornou independente da Etiópia

Os dois países, entretanto, não conseguiram chegar em um consenso sobre suas fronteiras, desencadeando a guerra entre a Etritreia e a Etiópia que deixou, em dois anos, 80 mil mortos. Em 2000, os países concordaram em firmar um cessar-fogo que determinava uma zona de 25 quilômetros protegida por uma missão das Nações Unidas. Os termos do acordo, entretanto, eram contestados e a relação entre os dois países continuou tensa

PUBLICIDADE O Acordo de Paz Abiy chegou ao poder em abril do ano passado e imediatamente disse que daria prosseguimento ao processo de paz com o país vizinho, trabalhando em cooperação com o presidente Isaias Afwerti, da Eritreia

Em julho de 2018, Abiy viajou até a fronteira entre os dois países sem alertar boa parte de sua Chancelaria. A visita atípica do premier, costumeiramente acusado de utilizar seu carisma e iniciativa pessoal para firmar acordos ao invés de recorrer aos meios governamentais, culminou na assinatura do acordo com Afwerti

Desde então, o pacto vem lentamente se transformando em medidas concretas, mas se transformou em um exemplo de como até mesmo conflitos históricos podem ser solucionados. A Ertreia e a Etiópia restauraram suas relações diplomáticas e os dois líderes se encontram frequentemente para discutir como reconectar as duas nações. As telecomunicações foram restauradas, permitindo que famílias separadas pela guerra pudessem se reconectar

Abiy também tem defendido mudanças domésticas e internacionais, indicando ex-dissidentes para cargos em seu governo. Reformas internas incluem o fim do veto a partidos políticos, a libertação de jornalistas detidos e a expulsão de militares acusados de tortura

Críticos apontam que ele ainda não apresentou uma reforma democrática, mas a presidente do Comitê responsável pelo prêmio, Berit Reiss-Andersen, disse discordar de tal premissa:

PUBLICIDADE — Nós reconhecmos sua intenção de realizar eleições democráticas no ano que vem e eu não concordo com a premissa dessa questão, porque muito já foi conquistado na direção de transformar a Etiópia em uma democracia, mais ainda há um longo caminho pela frente. Roma não foi feita em um dia, e nem a paz e o desenvolvimento democrático serão conquistados em um curto período de tempo

Abiy, de 43 anos, é o primeiro membro do maior grupo étnico da Etiópia, os Oromos, a chegar ao poder. Por décadas, os oromos foram marginalizados politica, econômica e culturalmente no país. Nascido no leste do país, ele se juntou à resistência contra a junta militar que governou o país até 1991 antes de se alistar no Exército, onde chegou a ser tenente-coronel

Doutor em Estudos de Paz e Segurança, o premier etíope liderou os serviços de ciberinteligência do país por um breve período, antes de ingressar na vida política, representando os Oromos

Segundo Reiss-Andersen, o comitê não havia conseguido contactar Abiy antes do prêmio para congratulá-lo, como é de praxe

Repercussão A vitória de Abiy foi entendida internacionalmente como um sinal de mudança no continente africano

“Eu tenho dito com frequência que os ventos da mudança estão soprando mais forte que nunca pela África. O primeiro-ministro Abiy Ahmed é uma das principais razões disso”, disse o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em comunicado. “Esse marco [o acordo de paz] abriu novas oportunidades para que a região tenha segurança e estabilidade e a liderança do primeiro-ministro Ahmed é um maravilhoso exemplo para outros na África e além”

PUBLICIDADE A Anistia Internacional, via Twitter, disse que o prêmio deverá servir como uma oportunidade para “impulsionar e motivar” Abiy a “enfrentar os imensos desafios de direitos humanos que ameaçam a reversão das conquistas obtidas até o momento”. O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, disse que Abiy “tem demonstrado que a paz é possível com paciência, coragem e convicção”

Antigos vencedores Em 2018, o prêmio foi concedido a dois ativistas que dedicam suas vidas a combater o estupro e a violência sexual como arma de guerra : o ginecologista congolês Denis Mukwege, de 63 anos, e Nadia Murad, de 25 anos, da minoria yazidi. Segundo o comitê responsável pela escolha, os dois, que não eram as principais apostas, receberam a honraria “por seus esforços para acabar com o uso da violência sexual como uma arma em guerras e conflitos

Desde 1901, o Nobel já premiou chefes de Estado, como Barack Obama (2011), Mikhail Gorbachev (1990) e Menachem Begin (1978), além de ativistas, a exemplo de Malala Yousafzai (2014), e organizações internacionais, como a União Europeia (2012) e as Nações Unidas (2001).  Neste ano, havia 301 candidaturas definidas neste ano, incluindo indivíduos e organizações, mas não se sabe quais foram nomeados nem suas identidades

PUBLICIDADE O prêmio é concedido pelo Comitê Norueguês do Nobel, basendo-se no testamento de Alfred Nobel, cientista e empresário sueco. Ele é composto por cinco membros escolhidos pelo Parlamento Norueguês. O vencedor recebe, além de uma medalha de ouro, 9 milhões de coroas suecas, o equivalente a US$ 910 mil (R$ 3,7 milhões)

Desde a última segunda-feira, o Nobel já divulgou os laureados das categorias de Medicina, Física, Química e Literatura. Na próxima segunda-feira, será a vez de Economia.